LIVRO: Matriciamento em Saúde Mental
- Bernardo Portela
- 27 de jul. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de jul. de 2021

1. O que é Matriciamento?
Matriciamento ou apoio matricial é um processo de construção compartilhada, em que duas ou mais equipes, criam uma proposta de intervenção pedagógico-terapêutica. É uma busca por fazer com que haja uma relação entre-setores de maneira mais horizontalizada, de modo a reestruturar o atendimento da seguinte forma:
equipe de referência;
equipe de apoio matricial.
1.1. Equipe de Referência e Equipe matricial
Formada pelas equipes da Estratégia da Saúde da Família (ESF), a equipe de referência atua de maneira longitudinal no cuidado em saúde, bem com o atendimento especializado a demandas específicas dos sujeitos.
A equipe matricial, por sua vez, está relacionada a "um suporte técnico especializado que é ofertado a uma equipe interdisciplinar em saúde a fim de ampliar seu campo de atuação e qualificar suas ações" (FIGUEIREDO e CAMPOS, 2009). Em poucas palavras, é a equipe que garante suporte técnico a outra, atuando frente a construção de um Projeto Terapêutico Singular (PTS).
* Não deve ser confundida com supervisão, pois atua ativamente no processo terapêutico.
Como mencionado a cima, o matriciamento não deve ser confundido com supervisão, pois atua no processo terapêutico. Dessa forma torna-se importante conhecer os instrumentos da equipe matricial
2.1. A Interconsulta
A interconsulta é um conceito amplo, que pode abranger desde uma discussão de casos entre equipes a consultas conjuntas e/ou visitas domiciliares conjuntas. Um aspecto que caracteriza a interconsulta é o fato de ela conter a discussão do caso. Não importa qual seja o método utilizado, a discussão de caso sempre estará presente.
Ainda sobre a discussão de casos é importante ressaltar que quanto mais diferentes sejam as fontes de informação e as visões dos profissionais presentes, maior a possibilidade de se obter uma visão abrangente e de se construir um projeto terapêutico realmente ampliado e singular.
2.2. A consulta conjunta
É a técnica que reúne, na mesma cena, profissionais de saúde de diferentes categorias, o paciente e, se necessário, a família deste. Para que uma consulta seja considerada conjunta ela precisa, necessariamente, a atuação de um matriciador e um matriciando. Um aspecto que caracteriza a interconsulta é o fato de ela conter a discussão do caso. Não importa qual seja o método utilizado, a discussão de caso sempre estará presente.
2.3. A visita domiciliar conjunta
No esperado, a visita domiciliar deve acontecer com regularidade, buscando oferecer atendimento àqueles que, por diversas razões, não comparecem nos atendimentos das unidades de saúde.
As fases para a realização de uma visita domiciliar conjunta são bastante semelhantes às da consulta conjunta e deve, quase em caráter de necessidade, contar com a visita do ACS. A discussão sobre um caso de visita domiciliar, por sua vez, deve incluir o maior número de participantes possível, mesmo que nem todos possam estar presentes no domicílio do usuário.
A tomada de decisão frente ao caso deve ser feita a posteriori e deverão ser levadas ao usuário pela equipe de referência, ou pensadas in loco, porém, a literatura comenta sobre a necessidade de contar com uma equipe experiente e sinérgica.
* A equipe pode improvisar uma sala de discussão em algum ambiente externo à casa do usuário, e retornar a seguir para a definição terapêutica.
2.4. Outros instrumentos utilizados pelo apoio matricial
Ligação Telefônica;
Genograma (Identificar a família);
Ecomapa (Relação do usuário com as coisas a sua volta).
3.1. Grupos na atenção primária
É um recurso fundamental nas práticas da atenção primária. Um pequeno grupo é composto por quatro pessoas no mínimo e o máximo é aquele que permite que todos se vejam e se ouçam.
Tradicionalmente os grupos realizados na atenção primária são os de educação em saúde e, infelizmente, muitas vezes são realizados em modelos de transmissão de informações, em que profissionais fazem palestras de saúde. Esse modelo apresenta dificuldades de adesão, não estimula a participação nem a corresponsabilização da saúde, além de ser monótono e repetitivo.
Dessa forma, uma equipe de apoio matricial pode trabalhar na coordenação conjunta destes grupos, fazendo com que seja, para além da transmissão verticalizada de saber, um espaço de reflexão crítica.
Funções de um coordenador de grupo:
Trabalhar para que as pessoas tenham autonomia e exerçam a cidadania no espaço;
Promover a constância e a confiabilidade;
Garantir a voz de todos;
Saber manejar e conduzir o grupo;
4. Saúde Mental
4.1. A atuação do matriciador frente a demanda de saúde mental
Lento o texto e as diversas vezes que ele comenta sobre a saúde mental e o matriciamento, a sensação que da é que todo o matriciamento em saúde mental, gira em torno da ideia de mostrar aos profissionais da atenção primária, que eles são capazes de oferecer cuidados em saúde mental.
Pois, de fato, a maioria das pessoas que tem algum tipo de especialização em saúde mental ocupa cargos outros do que a atuação em uma APS. Agregado a isso, se relaciona o fato de que, na maioria das vezes, o atendimento de alguém com algum transtorno mental, é relacionado a um surto, que estigmatiza ainda mais a atenção e o cuidado a esta parcela da população.
4.2. A Terapia como ferramenta dos profissionais da APS
O texto aborda a ideia de que os profissionais da APS podem realizar intervenções terapêuticas específicas, para lidar com uma demanda de atenção psicossocial, porém elas necessitam de treinamento específico. São terapias passíveis de utilização dentro de uma APS:
4.2.1. Reatribuição de sintomas somáticos sem explicação médica
É um processo de abordagem de pacientes com sofrimento emocional/transtornos psíquicos que buscam cuidados na atenção primária, geralmente com sintomas físicos sem explicação médica. Nesses casos é comum haver sintomas mistos, tais como a ansiedade e depressão.
Assim, a reatribuição busca construir uma conexão entre as queixas somáticas e o sofrimento psíquico é o primeiro passo para que os tratamentos psicossociais na atenção primária ou o encaminhamento para terapias especializadas sejam aceitos pelos pacientes.
4.2.2. Terapia de Solução de Problemas
É uma técnica psicoterápica do grupo das terapias cognitivas comportamentais para estresse da vida cotidiana. É uma abordagem breve e de fácil aplicação, centrando-se nos objetivos de ajudar o paciente a identificar problemas ou conflitos como uma causa de sofrimento emocional; ensiná-lo a reconhecer os recursos que possui para resolver as suas dificuldades.
Podem ser realizadas tanto em grupo como individualmente e tem, na maioria dos casos, de quatro até seis sessões, com média de 30 minutos.
4.2.3. Terapia Breve
A terapia breve atua nos estressores psicossociais, no suporte social e nas relações interpessoais, visando, basicamente, o rápido alívio sintomático e a melhora das relações interpessoais.
Essa forma de terapia vem sendo aplicada para casos de depressão em todas as faixas etárias, transtorno bipolar, transtornos alimentares, transtornos de estresse pós-traumático. Geralmente é realizada por profissionais especializados em saúde mental juntamente com os profissionais da APS.
4.2.4. Terapia Comunitária
É um espaço comunitário em que se procura compartilhar experiências de vida e sabedorias de forma horizontal e circular.
A TC pode ocorrer em qualquer espaço físico em que as pessoas tenham condições de se reunir e conversar: no posto de saúde/ESF, em salas de espera, escolas, praças, casas dos usuários etc. Para tal é necessária apenas a presença de um ou mais terapeutas comunitários com formação: qualquer profissional de saúde, líder comunitário ou pessoa capacitada.


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